Blog do Paulus: Entendendo a surfassagem tradicional, digital, freeform, double side e s digital surfacing

Entendendo a surfassagem tradicional, digital, freeform, double side e s digital surfacing

Esta matéria tem como objetivo explicar de forma simples e clara as diferenças entre a surfassagem tradicional, surfassagem digital clássica, surfassagem digital freeform, surfassagem digital double side e surfassagem digital s digital surfacing.

A surfassagem digital já não é mais novidade, já que todo o mercado óptico está ciente da existência das lentes digitais, porém a maioria dos profissionais não sabe diferenciar a lente digital clássica da lente digital freeform, da mesma forma que tem dificuldade de entender as diferenças entre freeform e os avançados métodos double side e s digital surfacing. Alguns colegas acreditam que tudo é a mesma coisa, mas não é.

Sabemos que surfassagem é o processo que consiste em produzir dioptrias numa  matéria prima semi acabada chamada "bloco". Após este processo, a matéria prima deixa de ser semi acabada e se torna uma lente oftálmica, cujo receituário é  feito sob medida, respeitando no mínimo as especificações de aro e DNP.

A dioptria de uma lente é o resultado da diferença entre o valor de sua curva externa em relação a sua curva interna. Para simplificar, vou arredondar o valor das curvas nos exemplos.

O nome mais correto para o bloco é "bloco semi acabado", pois parte dele está pronto (face externa) e parte dele não (face interna a ser surfassada).

Quero ressaltar que todos os esquemas de cálculo que vou mostrar nesta matéria são baseados em valores ilustrativos e didáticos, já que as variações das superfícies oftálmicas são mais complexas (0,01/0,06/0,12).

Na ilustração abaixo temos um bloco semi acabado com uma curva externa pronta com valor +5,00 (toda curva externa terá um valor positivo) e uma curva interna que será surfassada no valor de -6,00 (normalmente as curvas internas são negativas, salvas raras exceções). A diferença entre +5,00 da curva externa e -6,00 da interna resultará numa lente com -1,00 dioptria esférica.



A superfície externa do bloco semi acabado de uma lente multifocal é formado por diversos valores de curvatura que aumentam (progressivamente) até chegar em seu valor máximo na área inferior do bloco. O valor de curva em posição de visão de longe é chamado de "curva base". Abaixo da curva base, os valores de curva progridem gradativamente. Daí a origem do nome "lente progressiva".

As curvas de um bloco convencional multifocal progressivo, responsáveis pela dioptria de longe e de perto são:


  1. Curva base: curva posicionada na região centro-superior da lente (visão de longe)
  2. Curva da adição: posicionada na região da adição da lente (visão de perto)

Na ilustração abaixo temos um bloco para lente multifocal cuja curva base é +5,00 e a curva da adição é +7,00. O objetivo da surfassagem tradicional nesse tipo de lente é reduzir, lixar (desbastar) e polir a curva interna do bloco para produzir um valor, no exemplo: -6,00. 

A diferença entre o valor da curva base e o valor da curva interna surfassada é a graduação de longe (no exemplo, a dioptria será -1,00), já a diferença entre a curva da adição (+7,00) e a curva interna surfassada é a  responsável pela visão de perto ( no exemplo, a dioptria será +1,00).



A surfassagem tradicional de uma lente multifocal sempre utiliza um bloco progressivo, isso significa que todo o campo visual está desenvolvido e pronto na curva externa, restando apenas cumprir o processo para a realização da curva interna.




Na ilustração abaixo temos um bloco de lente multifocal cuja curva base é +5,00 e a curva da adição é +7,00. O objetivo da surfassagem digital clássica é realizar a curva interna através de um método menos agressivo, sem utilização de moldes e lixas. Apesar de ser um método de produção mais moderno e preciso sob o ponto de vista fabril, o objetivo continua o mesmo: gerar uma curva interna com valor suficiente para gerar a dioptria solicitada na ordem de serviço. Nada mais.



Em termos de precisão óptica, a surfassagem digital clássica beneficia o laboratório, pois o ferramental mais moderno reduz os índices de quebra. Para o óptico e o consumidor, nada muda, pois esta metodologia não amplia o campo visual já que o mesmo já estava pronto na superfície externa do bloco semi acabado.




Na ilustração abaixo temos um bloco de visão simples, isso mesmo, visão simples!. O objetivo da surfassagem digital freeform é gerar toda a progressão da lente na curvatura interna deste bloco, onde a precisão deste processo é gerenciada por um software especial que ordena a construção da curva interna de acordo com as especificações de design previstas. Em suma, a surfassagem digital freeform influencia no design da lente.



A influencia da surfassagem digital freeform no design da lente proporciona o  benefício da otimização do campo visual, já que a progressão da lente foi gerada na face interna. Isso faz com que ao utilizar o óculos, o usuário tenha este campo visual muito mais próximo de seus olhos, o que comprovadamente aumentará sua amplitude. Dependendo do produto e do software freeform utilizado, o aumento do campo visual se comparado a uma lente de surfassagem tradicional e surfassagem digital clássica fica entre 20 e 30%.



Sabemos que um consumidor exigente de lente multifocal progressiva não se contenta apenas com a amplitude dos campos visuais. Além da amplitude, melhor nitidez e sensibilidade ao contraste são muito desejados. Cientes que o método freeform conquista apenas a amplitude de campo, os fabricantes de lentes progressivas aperfeiçoaram seus processos produtivos para oferecer ao mercado opções top de linha de lentes digitais de alta performance.

O método digital de alta performance mais utilizado pelos fabricantes se chama "double side optimization" isso é: otimização de ambos os lados da lente.

A surfassagem digital "double side" utiliza como matéria prima um bloco semi acabado com asfericidade progressiva externa, porém contendo apenas parte do cálculo. A asfericidade necessária para complementar o cálculo do campo visual é gerada na curvatura interna da matéria prima. Por isso podemos chamar o "double side" de bi asférico, já que o campo visual foi construído em ambas as faces da lente através de asfericidade progressiva na curva externa e asfericidade regressiva (regride o valor da curva) na interna. 

Este processo que é encontrado na maioria das lentes top de linha dos fabricantes garante aos usuários melhor nitidez e contraste visual. Observe na imagem abaixo o comportamento da bi asfericidade no "double side".



Clique na imagem para ampliar, caso necessário.

O último método de surfassagem digital avançada descrito nesta matéria, utiliza bloco progressivo assim como o double side, porém há regressão nas duas faces da lente. Desenvolvido pela Essilor, o método se chama "S Digital Surfacing". Esta inovação incorpora 5 patentes que, segundo o fabricante, aumentam o rigor de precisão em cada etapa de produção e também contribuem para um cálculo de design que leva o double side a evolução.

Segundo informações da Essilor, "S Digital Surfacing" permite que as lentes progressivas se beneficiem do design Nanoptix que consiste num double side de dupla asfericidade regressiva. A asfericidade regressiva já era conhecida na face interna dos freeforms e double sides, porém a asfericidade regressiva na curva externa do bloco semi acabado é uma grande novidade, já que todos fabricavam as externas sempre progressivas (curva aumentando gradativamente da base até a adição).

Segundo o desenvolvedor do processo "S Digital Surfacing", esta nova abordagem de produção e design além de aumentar a nitidez e contraste visual, proporciona também uma adaptação mais rápida e segura para os usuários em visão de longe, intermediário, perto, periférica e dinâmica.

Observe na imagem abaixo o comportamento da bi asfericidade regressiva.


Clique na imagem para ampliar, caso necessário.

Ao final desta matéria, podemos chegar a conclusão que a tecnologia digital a disposição dos ópticos e consumidores é bastante variada. Para que o profissional óptico possa oferecer uma lente digital adequada para as necessidades de seus clientes, é necessário o entendimento sobre o que cada processo de surfassagem digital pode contribuir em benefício dos produtos ofertados.

Após o entendimento, o profissional óptico poderá observar em sua tabela de preços quais são os produtos de melhor relação custo x benefício em relação as tecnologias e vantagens que os mesmos oferecem. Essa independência de conhecimento é muito importante, pois nos auxilia no domínio de nossas ferramentas de trabalho, relacionamento e credibilidade.

Você pode também curtir e compartilhar esta matéria com seus amigos através dos plugins das redes sociais, localizados na parte inferior desta postagem.

Matéria escrita por Paulus Maciel. Direitos Reservados.

AJUDE O BLOG A SOBREVIVER. USE O PAY PAL E DOE R$10,00 COM SEU CARTÃO DE CRÉDITO. CLIQUE NO BOTÃO ABAIXO PARA FAZER A SUA DOAÇÃO SEGURA.
 

Licença Creative Commons
Entendendo a surfassagem tradicional, digital, freeform, double side e s digital surfacing está licenciado sob uma licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

Sessão de Comentários

Atenção!
Comentários enviados por e mail ou redes sociais não serão respondidos!
Favor deixar sua dúvida ou pedido de contato com o autor apenas nesta sessão de comentários do blog.

recomendamos a leitura

Paulus Maciel se reserva no direito de usufruir da liberdade de expressão assegurada pela constituição federal:

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

IX - é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação independentemente de censura ou licença