Blog do Paulus: Parte 2 - Solucionando Problemas na Venda e Adaptação de Óculos

Parte 2 - Solucionando Problemas na Venda e Adaptação de Óculos

Aqui estamos nós para iniciar o primeiro item que pode atrapalhar a venda ou a adaptação de um óculos no consumidor, as temidas "lentes espessas".

Sempre quando se aborda o assunto "lentes espessas" surge o famoso cálculo de espessura de lentes. Eu gostaria de pedir a sua permissão para desenrolar esta matéria sem utilizar este cálculo. Proponho uma abordagem mais ágil e preventiva para termos ótimos resultados de espessura no produto final. Tudo isso baseado nos mais de 12 anos de experiência que adquiri resolvendo problemas de adaptação.

Nesta e nas demais matérias, vou utilizar muito o método da "venda preventiva" isso é, tudo que pode dar errado após a venda do óculos é eliminado durante a venda do mesmo, através dos processos de anamnese, análise de prescrição, escolha da armação, escolha das lentes e tomada de medida.

Pensando na venda preventiva, os quatro aspectos que mais influenciam na espessura das lentes são:

  1. Escolha da armação
  2. Prescrição versus índice de refração
  3. Medidas incorretas do aro
  4. Óculos anterior descentrado
Vamos abordar de forma bem objetiva cada um desses quatro aspectos, começando pela escolha da armação.

Na foto abaixo, temos um exemplo de armação mal escolhida, onde podemos perceber falta de centralização da lente em relação as distâncias pupilares da pessoa.

Nesta outra foto, podemos perceber uma melhor centralização da lente em relação as distâncias pupilares da modelo. Este ponto é fundamental para a redução proporcional da espessura das lentes, a centralização da armação no rosto do usuário.

Vou dar alguns exemplos práticos de centralização da armação utilizando um modelo de acetato com as seguintes medidas:
  • Ponte = 22mm
  • Aro = 47mm
  • Diagonal Maior = 47mm
  • Vertical do Aro = 36mm
Neste primeiro exemplo, vamos usar uma lente pronta CR39 com +6,00 esférico, montada na "armação modelo" com uma DNP de 35mm em ambos os olhos. Altura de montagem centrada.
O valor da soma da ponte + aro da armação é 69mm, isso é, um valor igual a medida da DP. Esta aproximação de medidas centralizou a lente no aro, fazendo com que o centro com 7.8mm ficasse no centro do aro, distribuindo igualmente a espessura entre a parte nasal e temporal da armação.
Apesar de ambas as bordas ficarem com uma elevação de 4.6mm, a borda do acetato possui 4,5mm, o que disfarça bastante, deixando o aspecto final muito interessante.

Neste segundo exemplo, vamos usar a mesma lente pronta CR39 com +6,00 esférico, montada na "armação modelo" com uma DNP de 30mm em ambos os olhos. Altura de montagem centrada.
O valor da soma da ponte + aro da armação é 69mm, isso é, um valor 9mm maior do que a DP. Esta desigualdade de medidas fez com que a lente não ficasse centralizada no aro, deixando o centro mais fino que o exemplo anterior, mas com uma elevação nasal de 6mm, isso é, 30% mais espessura do que o exemplo anterior. O resultado final apresentou uma lente muito mais espessa na parte nasal do que na temporal. Ainda bem que a armação não tem plaqueta, senão o ajuste da mesma seria difícil.

Neste terceiro exemplo, vamos usar uma lente pronta CR39 com -6,00 esférico, montada na "armação modelo" com uma DNP de 35mm em ambos os olhos. Altura de montagem centrada.
O valor da soma da ponte + aro da armação é 69mm, isso é, um valor igual a medida da DP. Esta aproximação de medidas centralizou a lente no aro, fazendo com que o centro com 2.2mm ficasse no centro do aro, distribuindo igualmente a espessura entre a parte nasal e temporal da armação.
Ambas as bordas ficaram com uma espessura de 5.6mm, isso é 1,1mm de lente para fora da borda do acetato que possui 4,5mm. Se o montador for "fera", vai ser difícil sobrar lente fora do aro. Em suma, um ótimo resultado de espessura, até mesmo para um CR39 com 6,00 dioptrias esféricas negativas.

Neste quarto exemplo, vamos usar a mesma lente pronta CR39 com -6,00 esférico, montada na "armação modelo" com uma DNP de 30mm em ambos os olhos. Altura de montagem centrada.
O valor da soma da ponte + aro da armação é 69mm, isso é, um valor 9mm maior do que a DP. Esta desigualdade de medidas fez com que a lente não ficasse centralizada no aro, deixando o centro mais espesso (2.4 versus 2.2) que o exemplo anterior e com uma espessura temporal de 7.4mm, isso é, 32% mais espessura do que o exemplo anterior, deixando quase 3mm de lente para fora do aro. Eis que surge o famoso "fundo de garrafa".

Nesses quatro exemplos apresentados, chegamos a conclusão que uma boa espessura de lente depende da escolha de uma armação centralizada no rosto do usuário. De nada adianta vender uma lente com índice de refração 1,67 ou 1,74 e oferecer uma armação sem centralização. Lembre-se sempre que índice de refração não é garantia de lentes finas e sim a escolha da armação.
Podemos praticar este conceito na venda preventiva, medindo a DP do cliente com pupilometro e após isso, escolher armações onde a soma da ponte mais o aro fique o mais próximo possível da DP dele.
Alguns ópticos já seguem este modelo de venda preventiva, separando as armações nos gaveteiros por medida da ponte mais o aro. Desta forma, basta medir a DP do cliente e ir ao gaveteiro correspondente as armações mais adequadas.

O segundo aspecto que precisamos levar em consideração é a coerência entre a prescrição e o índice de refração da lente. 

Uma das primeiras coisas que aprendemos em óptica é "quanto maior o índice de refração, mais finas ficam as lentes". Esta frase é verdadeira só quando essas lentes são comparadas no mesmo diâmetro, isso é, índice de refração não faz milagre em óculos, ele é apenas o complemento de uma armação bem escolhida.

Quando se escolhe bem a armação, podemos escolher um índice de refração que seja coerente com a prescrição apresentada. Baseado nas minhas experiências práticas, apresento a vocês uma tabela que irá auxiliá-los na escolha do índice de acordo com as dioptrias para um máximo desempenho de espessura.

Muitos ópticos tem dúvida se a surfassagem pode fazer diferença na espessura de uma lente. Isso depende da dioptria.

Se a dioptria for positiva, a surfassagem de um bloco de índice coerente com a dioptria pode trazer um resultado de espessura melhor em relação a uma lente pronta de mesmo índice. Para um ótimo resultado de espessura, utilize surfassagem em receitas positivas a partir 2,50 dioptrias Lembre-se de escolher bem a armação (ponte + aro igual ou muito próximo da DP). 

Caso a dioptria seja negativa, a surfassagem não vai trazer diferencial de espessura em relação a uma lente pronta de mesmo índice. Em lentes negativas apenas a armação e o índice fazem a diferença.

O terceiro aspecto que pode atrapalhar o resultado final da espessura da lente é quando cumprimos perfeitamente os passos acima, mas na hora de anotar as medidas da armação na ordem de serviço, cometemos erros na medição do aro.

As medidas do aro são decisivas no cálculo que irá determinar a redução diâmetro do bloco na surfassagem. Caso essas medidas sejam feitas de forma errada, a espessura das lentes será comprometida.

A Hoya tem um guia fantástico que ensina como se faz corretamente a medida da armação. Segue a imagem dele abaixo (baixa resolução). Você pode também fazer o download do arquivo pdf do informativo com alta qualidade de imagem, basta clicar no seguinte link: http://www.lenteshoya.com.br/optico/downloads/tomadas_de_medida_lifeStyle.pdf

O quarto é último aspecto que pode influenciar é quando o óculos anterior do cliente está com lentes super finas não por causa da escolha da armação e do índice e sim por que a DNP foi montada fora propositadamente para reduzir a espessura na montagem.

Existem dois pontos a serem observados, o primeiro é saber desde quando o cliente está usando um óculos fora de sua DNP. Caso o cliente esteja utilizando a mais de um ano, ele vai estranhar um óculos novo com a DNP montada certa, pois ele se acostumou com o prisma que foi induzido pela montagem fora do centro óptico.

Toda vez que montamos um óculos fora de sua DNP, o cliente enxerga através de um prisma induzido que é calculado por uma regra chamada "Prentice" que nada mais é do que a dioptria esférica multiplicada pela descentração da montagem (em cm) que resultará no prisma. Exemplo +3,75 esférico montado 5mm fora da DNP (óculos curvado, sabe?) resulta num prisma de 1,88 (+3,75 X 0,5cm=1,88). No começo o cliente enxerga mal, mas depois ele fica acostumado e isso é terrível e inaceitável.

Além do cliente estar viciado num prisma de um óculos montado com a DNP fora para a lente ficar fina, ele não terá um bom resultado de espessura se ele quiser usar a mesma armação numa DNP correta. A melhor coisa a se fazer neste caso é vender uma armação adequada e oferecer uma lente com índice coerente com a sua ametropia. Da mesma forma que ele se acostumou com uma DNP errada, ele desta vez também vai se acostumar, agora numa DNP certa. Esse processo de adaptação pode durar até 10 dias. Após este período o cliente estará readaptado.

Com exceção de prismas prescritos em receita, eu te garanto que se você seguir todos os passos descritos nesta matéria, os resultados de espessura das lentes dos óculos de seus clientes serão os melhores possíveis sem complicações técnicas, bastando escolher armação centralizada, índice coerente com a prescrição e medição correta do aro para a ordem de serviço.

A terceira parte da série de artigos sobre solução de problemas na venda e adaptação de óculos vai falar sobre lentes que sujam com facilidade.

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Matéria escrita por Paulus Maciel.

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