Blog do Paulus: Solucionando problemas de adaptação em óculos

Solucionando problemas de adaptação em óculos

O objetivo deste artigo é fazer um resumo das 12 edições da consagrada série de matérias "Solucionando problemas na venda e adaptação de óculos".

Sabemos que uma perfeita adaptação do usuário em seus óculos depende de uma série de detalhes que bem executados podem oferecer máxima satisfação. Algumas vezes parte desses fatores podem influenciar de forma decisiva neste processo.

Há muitos anos acompanho de perto o processo de adaptação de muitos usuários, onde pude catalogar quais são as questões mais frequentes que impactam em suas adaptações, o que gerou a série de 12 matérias sobre o assunto. Neste artigo vou resumir todas. Espero que goste.

Trata-se de um artigo um pouco longo, portanto você pode ler o mesmo em partes ao longo desta semana. Aproveite!

Fator 1 - Lentes Espessas

Os principais aspectos que contornam uma boa espessura de lente são: 
  • Escolha da armação
  • Prescrição versus índice de refração
80% dos problemas relacionados a espessura de lentes está relacionado a má escolha da armação que gera falta de centralização e por consequencia lentes espessas.

A soma da ponte e do aro horizontal da armação precisa ser próximo ou igual a DP do usuário. Quanto mais distante forem esses valores, mais espessa a lente ficará e nenhum índice de refração pode resolver isso.

Na ilustração abaixo temos uma lente -6,00 de um usuário de DP 60mm montada numa armação de ponte + aro de 69mm. Observe que a espessura na parte temporal ficou insatisfatória justamente por causa desta falta de centralização do óculos no rosto do usuário em questão.


Na ilustração abaixo temos uma lente -6,00 de um usuário de DP 69mm montada numa armação de ponte + aro de 69mm. Observe que a espessura na parte temporal ficou com ótimo resultado justamente por causa da centralização bem feita do óculos no rosto do usuário em questão.


Após a escolha de uma armação com a centralização adequada, precisamos oferecer ao usuário lentes cujos índices de refração sejam compatíveis com as graduações de suas receitas. Para facilitar este processo montei uma tabela que mostra os melhores índices de acordo com as faixas de graduações. Veja a tabela abaixo:


Fator 2 - Insatisfação com o tratamento antirreflexo

A principal reclamação de alguns usuários de lentes antirreflexo é que as lentes sujam com muita facilidade. Os dois principais fatores que influenciam nesta reclamação são:

  • Falta de performance da tecnologia
  • Aparência do reflexo residual
Uma lente antirreflexo considerada de "performance básica" possui 3 tecnologias agregadas:
  • Tratamento resistente a aranhões
  • Tratamento antirreflexo
  • Tratamento antiaderente
Quando a única tecnologia para manter uma lente antirreflexo limpa é a antiaderente, alguns usuários mais exigentes não vão se sentir satisfeitos com a facilidade de limpeza.

Lentes antirreflexo premium são ótimas opções para usuários que são exigentes quanto a facilidade de limpeza de suas lentes. As lentes antirreflexo premium possuem as seguintes tecnologias:

  • Tratamento resistente a aranhões
  • Tratamento antirreflexo
  • Tratamento hidrofóbica (ajuda a repelir água)
  • Tratamento oleofóbico (ajuda a repelir gordura)
  • Tratamento anti estático (ajuda a repelir poeira)
Em suma, para evitar reclamações de clientes quanto a facilidade de limpeza das lentes, ofereça sempre antirreflexo premium atualmente presente em vários fabricantes com várias faixas de preços que com certeza seu cliente poderá adquirir, caso você explique as diferenças entre um antirreflexo básico e um premium. 

Lembre-se de explicar como limpar e lavar as lentes. Limpar com lenço especial e lavar com água fria e detergente neutro.

Outro aspecto que pode influenciar é a intensidade do reflexo residual pois quando este residual é forte, ele serve como "pano de fundo" para a sujeira ficar mais visível nas lentes induzindo o usuário a limpar ainda mais as lentes. Desta forma o usuário forma a opinião que a lente "suja mais fácil".

Veja na ilustração lentes sujas de diversas intensidades de reflexos residuais onde você irá perceber as sujeiras mais aparentes em residuais mais fortes.

Fator 3 - Alteração de nitidez e campo visual para longe

Os principais aspectos influenciadores são:
  • Índice de refração da lente
  • Curva base da lente
  • Altura de montagem
Quando uma pessoa está utilizando há muito tempo lentes de um determinado índice de refração, ela estará mais sensível as alterações de nitidez caso você venda a ela uma lente de índice diferente.

Numa lente de índice maior, a transmissão de luz é mais vagarosa e o ângulo da refração da luz na lente é mais fechado e isso influencia na alteração de contraste visual percebida pelo usuário como "falta de nitidez".

Quando a luz refrata numa lente CR-39 sua velocidade reduz cerca de 33%. Numa lente de índice 1.67 a velocidade reduz cerca de 40% além do ângulo de entrada da luz ser diferente.

Quando usamos uma lente de maior índice, a resolução da nossa imagem aumenta, as cores ficam mais vivas, porém não conseguimos enxergar "detalhes" como letreiros pequenos a longa distância, por exemplo. Um bom exemplo é quando aumentamos a resolução do monitor do nosso computador e percebemos as cores mais vivas e as letras e números um pouco menores.

Esferômetro
O mais importante é que qualquer índice de refração vai respeitar a correção visual necessária diagnosticada no exame visual. A mudança de índices impacta em "detalhes" que estão fora dos parâmetros de acuidade visual exigidos no exame. Em suma, continue vendendo lentes de índices maiores, porém informe seu cliente que ele pode nos primeiros dias de uso "sentir uma pequena diferença" devido a alta tecnologia da lente.

Outro fator que pode influenciar na percepção de nitidez por parte do usuário é quando adaptamos lentes com a curva base diferente do que o cliente está acostumado. Isso normalmente acontece quando mudamos a marca da lente ou o índice de refração do material. 

Evite montar a altura acima da pupila
Vale a pena ressaltar que podemos vender lentes de índices e materiais diferentes com a opção de surfassar a lente na curva base que o cliente está acostumado, basta usar o esferômetro e medir a curva base do óculos atual do cliente e anotar na ordem de serviço do laboratório a curva que você deseja (igual ou a mais próxima possível).

Em lentes multifocais progressivas devemos estar atentos a altura de montagem que deve ser feita na pupila nunca acima dela, pois pode influenciar negativamente na adaptação do usuário em visão de longe.

Fator 4 - Alteração de nitidez e campo na visão de perto

Imaginando que o exame visual está bem feito da mesma forma que foram bem executadas as medidas de DNP e altura, a maioria das queixas de usuários de lentes multifocais progressivas na visão de perto estão relacionadas as suas convergências.

A convergência é a diferença entre a DNP de longe e de perto de seu cliente. Esta medida pode ser realizada no pupilômetro.

Boa parte das lentes multifocais vendidas no Brasil possuem a convergência do corredor progressivo a 2,5mm porém nem todas as pessoas convergem 2,5mm. Na ilustração abaixo podemos observar como a convergência das pessoas pode variar. (clique na imagem para ampliar)




Um presbita de convergência acima ou abaixo de 2,5mm que está usando lentes multifocais de corredor a 2,5mm se queixam de limitação do campo de perto, apresentando os seguintes sintomas:
  1. Dificuldade de leitura de textos, pois apenas uma pequena parte da linha fica nítida.
  2. O campo de perto melhora quando a cabeça fica reta e a leitura é bem jogada para o lado direito ou esquerdo.
  3. O campo de perto melhora quando a leitura fica no centro, porém a pessoa precisa movimentar a cabeça de lado para enxergar no canto da lente.
  4. O campo de perto melhora quando a pessoa segura o óculos e o movimenta lateralmente perante os olhos.
Antigamente, por causa da limitação de multifocais otimizados econômicos no mercado, o óptico era obrigado a solicitar a modificação da montagem do óculos para a pessoa enxergar melhor para perto. A técnica consiste em montar a DNP do multifocal com o valor da DNP de perto + 2,5mm.

Na ilustração abaixo temos um exemplo de uma convergência de 4mm, onde na montagem a DNP de longe (34) foi ignorada para que fosse utilizado o valor de 32,5 (30+2,5). O corredor foi deslocado na montagem, a pessoa voltou a enxergar bem para perto, porém ocorreu uma descentração da cruz de montagem que provoca prisma na lente. Se o esférico de longe desta lente fosse +4,00, com a montagem descentrada em 1,5mm (34 da DNP certa - 32,5 da DNP forçada) vai gerar, segundo Prentice um prisma de 0,60d na visão de longe do seu cliente. (caso necessário, clique na imagem para ampliar).



Atualmente há grande variedade de multifocais com relação custo x benefício que adequam o corredor progressivo de acordo com a convergência de míopes e hipermetropes, fazendo com que o "recurso"  DNP de perto + 2,5mm, considerado uma "gambiarra" seja extinto. 

Na venda preventiva é recomendado medir a DNP de longe e de perto do cliente, caso a subtração desses valores seja maior ou menor que 2,5mm venda lentes multifocais cujos desenhos variem conforme a adição e a curva base.

Não são apenas as ametropias que determinam as variações de convergência, mas também a anatomia da pessoa pode proporcionar uma convergência mais ou menos acentuada. Eu, por exemplo, tenho miopia de 1 dioptria, DP de 69 e rosto largo, fatores anatômicos que contribuíram em parte para uma menor convergência. Para casos como o meu, qual multifocal podemos vender?

Procure lentes multifocais freeform otimizadas pela DNP de perto do usuário, isso é, o óptico precisa anotar na ordem de serviço tanto a DNP de longe quanto a de perto do cliente. O software freeform irá calcular a convergência e construir na face interna da lente um corredor deslocado exatamente na mesma milimetragem da convergência informada na O.S.

O campo de perto também pode ficar restrito verticalmente caso você monte a altura da lente multifocal progressiva muito abaixo da pupila, conforme ilustração acima.

Fator 5 - Alteração de nitidez e limitação de campo na visão intermediária

As causas mais frequentes que resultam nas queixas sobre visão intermediária são:
  1. Altura de montagem
  2. Ergonomia
  3. Escolha da lente 
  4. Refração
A marcação pupilar que definirá a posição da cruz de montagem numa lente progressiva não pode estar abaixo ou acima da pupila, pois acarretará em limitação de campo intermediário.
  • Quando a cruz de montagem fica acima da pupila, a limitação da visão intermediária ocorre quando o usuário na sua postura natural abaixa um pouco os olhos para acessar o campo, porém ele esta curto e mal posicionado. A situação melhora quando o cliente desce a armação e a coloca praticamente na ponta do nariz, rebaixando a zona intermediária para o local onde ela deveria estar de fato.
  • Quando a cruz de montagem fica abaixo da pupila, a limitação da visão intermediária ocorre quando o usuário na sua postura natural abaixa muito os olhos para encontrar o campo e só o encontra próximo a região onde sua postura costuma utilizar para a leitura de perto. A situação só melhora quando seu cliente ergue a armação, levantando a zona intermediária para o local onde ela deveria estar de fato.
Está cada vez mais comum ouvir queixas sobre limitação da visão intermediária, até mesmo quando a altura de montagem está correta. Nesse momento é importante saber com e como o seu cliente exerce suas
atividades. Ao computador, percebo mais reclamações dos usuários de notebooks e isso se justifica pela falta de ergonomia entre o equipamento e seu usuário. Na entrega dos óculos e na orientação ao uso de lentes progressivas é muito bom lembrar ao cliente sobre os aspectos básicos da ergonomia:
  1. Distância entre 50 e 60cm entre os olhos e o monitor com brilho devidamente ajustado
  2. A área superior da tela do monitor deve estar na altura da linha dos olhos. Usuários de notebook precisam usar suportes ergonômicos para erguer o equipamento.
  3. Com esta postura, os olhos irão abaixar mais do que a cabeça e com o monitor na linha dos olhos, o acesso a visão intermediária da lente progressiva será fácil e confortável.
A escolha da lente deve estar sempre baseada na anamnese, isso é nas perguntas que você fará para sondar as necessidades de seus clientes. No caso de um usuário presbita que utiliza muito a visão intermediária, sugiro a venda de dois óculos para performance máxima:
  1. Lente progressiva freeform otimizada por altura de montagem e DNP de perto. Dê preferência escolha armações cujas alturas de montagem fiquem a partir de 17mm. Óculos para uso geral, preferencialmente com antirreflexo. 
  2. Lentes ocupacionais. Sugiro lentes que possuam perfis de distâncias pré determinadas ou perfis de distâncias individualizadas. Óculos para uso ocupacional confortável, preferencialmente com antirreflexo.
A refração também pode influenciar tanto na limitação quanto na falta de nitidez em visão intermediária, tudo depende da obtenção da graduação de perto:
  1. Se a adição estiver mais forte do que o usuário precisa, automaticamente a dioptria intermediária ficará também mais forte, ocasionando desconforto e até dores de cabeça.
  2. Se a adição estiver mais fraca do que o usuário precisa, automaticamente a dioptria intermediária ficará também mais fraca, causando falta de nitidez e contraste visual.
Fator 6 - Falta dos ajustes necessários 

Quando o usuário é submetido ao exame de refração, as condições ópticas são bem diferentes das apresentadas num óculos, já que a armação da caixa de prova não apresenta inclinação pantoscópica e suas lentes apresentam diâmetro e curvatura mais reduzidos, além da distância vértice do exame adotar um padrão de 14mm.

Num óculos sem ajuste, naturalmente a peça já apresenta inclinações e curvatura maiores do que uma armação de prova, fora a curvatura maior da lente adquirida.

No óculos ajustado, temos inclinações maiores e distâncias vértices sem garantia de estarem a 14mm.

Todos os parâmetros naturais ou ajustados num óculos alteram a percepção da dioptria obtida através do exame de refração, portanto, em termos de precisão, a prescrição não é obedecida.

Através das lentes personalizadas produzidas pelo método freeform, podemos compensar os prismas gerados pelos ajustes e formas geométricas das armações, proporcionando assim maior respeito a prescrição e por consequência, maior precisão visual por melhoria do contraste.

No pedido de lentes desta categoria, as informações sobre medidas e ajustes são prioritárias para a confecção da superfície ideal para melhor precisão visual.

Seguem abaixo alguns ajustes e medidas que precisam ser observados no pedido de lentes personalizadas:
  • A distância vértice em lentes personalizadas não precisa ser necessariamente 14mm. Ajuste conforme a anatomia do rosto do cliente e o tipo de aro (com ou sem plaquetas). Anote o valor encontrado na ordem de serviço, assim o cálculo de surfassagem irá compensar a dioptria, caso o ajuste esteja fora dos 14mm.
  • O ajuste o ângulo pantoscópico deve ser feito de forma personalizada. Coloque a armação no rosto do cliente, dê uma revista a ele e peça que aponte com o dedo em que parte da página está enxergando para fora do aro. Faça o ajuste da inclinação e repita o teste da revista até obter campo de visão  satisfatório dentro do aro. Cuidado para não inclinar demais, pois a borda superior da armação ficará fora de estética.
  • Meça a curvatura do aro através de gabarito específico e anote na ordem de serviço. Peça ao laboratório ou fabricante que envie o gabarito para a medição da curva do aro.
Clique na imagem para ampliar.
  • A DNP de perto é solicitada para lentes com corredor otimizado de acordo com a convergência do usuário. Sempre que for solicitado, anote esta medida, assim seu cliente terá o melhor campo possível para a visão de perto. Meça sempre com pupilômetro. Se precisar mais informações sobre como se mede DNP com pupilômetro, CLIQUE AQUI.
  • Altura pupilar, DNP de longe e medidas do aro, tais como ponte, aro, diagonal maior e vertical devem ser medidas normalmente e anotadas na ordem de serviço. Se precisar mais informações sobre como se mede uma armação para o pedido de lentes surfassadas, CLIQUE AQUI.
Lembre-se que como as dioptrias dessas lentes são corrigidas, a leitura das mesmas no lensômetro é mais complexa, por isso, após a surfassagem do produto, o laboratório envia ao óptico o envelope contendo os dados das dioptrias solicitadas em prescrição e as dioptrias corrigidas confeccionadas nas lentes personalizadas.

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Artigo escrito por Paulus Maciel.

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