Blog do Paulus: Parte 3 - Interpretação de receita e indicação de produto

Parte 3 - Interpretação de receita e indicação de produto

Matéria escrita por Paulus Maciel. Direitos reservados.

Nesta terceira parte da série de matérias sobre interpretação de receita e indicação de produtos, vou sugerir alguns procedimentos para pedidos de lentes para a correção da anisometropia.

Anisometropia é quando existe diferença considerável entre os erros refrativos do OD para o OE, isso é, recebemos na loja uma receita onde existe uma notável diferença entre a graduação do olho direito em relação ao esquerdo.

Ao contrário do que se prega, não é possível estabelecer em qual diferença dióptrica a anisometropia é caracterizada, pois outros fatores podem influenciar nesta definição, tais como: idade do usuário, capacidade de fusão das imagens, perfil psicológico etc**.

Na prática, podemos estabelecer informalmente um referencial o qual precisamos estar atentos quanto ao pedido das lentes ao laboratório óptico. Como o mercado está abastecido de ótimas opções em materiais de lentes para óculos, considero que uma diferença a partir de 3,00 dioptrias entre as correções de OD e OE podem ser um bom referencial, desde de que técnicas adequadas de seleção das lentes sejam consideradas.

Existem dois tipos de anisometropias, a axial e a refrativa. Na axial ambos os olhos possuem o mesmo poder refrativo, porém possuem comprimentos diferentes. Na anisometropia refrativa, os olhos possuem poderes refrativos diferentes. O diagnóstico do tipo de anisometropias através do biômetro e ceratometria não é tão fácil como se imagina, por isso, muitos profissionais de refração definem como axiais as anisometropias de miopias altas e as refrativas as que apresentam variações entre os índices de refração de um olho para o outro**.

A anisometropia refrativa é normalmente corrigida com maior eficácia com lentes de contato, portanto para os que adaptam óculos, é mais comum receber na loja receitas de anisometropias axiais.

Nas ilustrações abaixo temos cinco exemplos de anisometropias com prescrições fáceis de se encontrar no dia a dia. As ametropias apresentadas abaixo, são reproduções de casos reais de minha vivência técnica. Para cada exemplo de anisometropia, vou apresentar sugestões práticas e eficientes no tocante ao pedido das lentes.
EXEMPLO 1 - ANISOMETROPIA DE ESFÉRICOS NEGATIVOS



EXEMPLO 2 - ANISOMETROPIA ENTRE ESFÉRICO PLANO E ESFÉRICO NEGATIVO


O exemplo N°1 mostra uma anisometropia entre esféricos negativos e o N°2 entre esférico plano e esférico negativo, possivelmente essas são as mais temidas entre os profissionais ópticos, devido a possibilidade de grande diferença na espessura das bordas entre as lentes de OD e OE. Neste caso, a centralização técnica é fundamental. Sugiro as seguintes dicas:
  1. Observe a receita e tenha consciência de que diferenças grandes de graduação dificultam o trabalho de igualdade entre as espessuras, portanto, a atenção deve ser redobrada.
  2. Meça a DNP do cliente e anote na ordem de serviço das lentes.
  3. Meça a DP do cliente, anote num rascunho.
  4. Selecione armações de acetato cujas somas "ponte + horizontal do aro" não passem sequer 1mm do valor da DP do cliente.
  5. Existe uma facilidade maior de encontrar armações bem centralizadas para pessoas de rosto largo e DP a partir de 65mm. Nesse caso, fique atento aos valores das pontes que tudo dá certo.
  6. Existe uma dificuldade maior de encontrar armações bem centralizadas para pessoas de rosto largo e DPs abaixo de 65mm. Neste caso, escolha armações com talões (charneiras) mais longas, assim a abertura da armação será maior para o encaixe no rosto sem prejudicar o tamanho da horizontal do aro.
  7. Também existe uma dificuldade maior em encontrar armações para pessoas de rostos finos e DPs a partir de 65mm. Caso a base nasal da pessoa seja alta, escolha uma ponte de valor abaixo de 18mm e uma horizontal de aro entre 47 e 49mm. Se a base nasal for baixa, provavelmente a ponte precisará ter entre 20 e 22mm, então o valor da horizontal do aro pode ficar entre 46 e 47mm.
  8. Nunca venda uma armação com a ponte mais larga que o necessário para o nariz do cliente, pois resinas de alto índice costumam ser mais pesadas que o CR (1.47g/cm³ da resina 1.74 versus 1.32g/cm³ do CR39) e o óculos pode sair fácil do ajuste, principalmente se o cliente suar ou tiver pele oleosa.
  9. Nunca, absolutamente nunca coloque lentes de índices de refração diferentes na tentativa de igualar espessura, por exemplo, lente CR1.49 para OD e resina 1.67 para OE. A luz refrata em velocidades e incidências muito desiguais entre materiais diferentes de lentes. Venda sempre o mesmo índice de refração em ambos os olhos.
  10. No exemplo N°1 ambas as lentes exigem índices 1.67 ou 1.70 ou 1.74. A lente que possui -8,00 vai ficar na mesma espessura de borda, independente de ser pronta ou surfassada. A surfassagem pode ser útil para deixar a borda da lente -1,00 um pouco mais espessa na tentativa de equilibrar as espessuras entre OD e OE. Tudo depende da armação versus a DP de seu cliente. Antes da surfassagem, solicite ao seu laboratório óptico uma simulação da espessura natural das duas lentes surfassadas em alto índice e decida junto ao seu técnico de confiança se vale a pena ou não equilibrar. No exemplo N°2, com uma armação de acetato bem centralizada, ambas as lentes prontas com índice 1.67 vão apresentar espessuras "próximas" entre elas.
  11. A altura de montagem nas lentes monofocais em resina de alto índice (desde que sejam asféricas) não precisa ser na pupila, sendo assim, podemos fazer uma altura centrada, facilitando o equilíbrio vertical das espessuras. 
EXEMPLO 3 - ANISOMETRIA DE CILÍNDRICOS NEGATIVOS


O exemplo N°3 que está acima mostra também uma anisometropia entre dioptrias negativas, porém cilíndricas. Todos os cuidados (de 1 a 11) mostrados acima podem ser utilizados para esta anisometropia, porém devemos escolher um modelo de armação com linhas mais curvas do que retas, pois é bom lembrar que a parte oposta ao eixo da receita será a mais espessa da lente. Para que a região das extremidades diagonais das lentes não fiquem espessas, escolha formatos mais arredondados de armação, caso a receita tenha eixos entre 45 e 135°. Se o eixo for a 90° escolha sempre uma armação com ponte + aro horizontal = DP do cliente.
EXEMPLO 4 - ANISOMETROPIA DE ESFÉRICOS POSITIVOS
EXEMPLO 5 - ANISOMETROPIA ENTRE ESFÉRICO PLANO E ESFÉRICO POSITIVO 

As lentes dos exemplos 4 e 5 além de dependerem da centralização da armação (ponte+aro=DP), dependem também da surfassagem para a redução do diâmetro e consequentemente da espessura das lentes. Sugiro também essas dicas:

  1. Venda sempre lentes asféricas surfassadas de alto índice. Apesar do resultado estético do CR surfassado ser considerado bom, a qualidade visual das lentes asféricas surfassadas é bem melhor e com estética ainda mais interessante por trabalhar curvas externas mais planas e reduzir tambem o chamado "efeito lupa" que costuma "aumentar" o tamanho dos olhos atrás das lentes.
  2. Para a escolha da armação e altura de montagem, utilize as dicas de 1 a 9 mais a 11, descritas logo acima.

Todas as dicas sobre o fator "espessura" apresentadas nesta matéria podem ser utilizadas também para antimetropias, já que antimetropia é considerada uma anisometropia. Para acessar a matéria que relata a interpretação de receituário e indicação de produto para antimetropia CLIQUE AQUI.

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**Revisando as Ametropias - Sidney Júlio de Faria e Sousa, Scielo,2002

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