Blog do Paulus: Adaptação de lentes graduadas em óculos esportivos curvados

Adaptação de lentes graduadas em óculos esportivos curvados

Objetivo

O objetivo desta matéria é oferecer segurança e confiança para que o profissional óptico possa adaptar óculos esportivos curvados e graduados nos clientes que desejam esta opção.

Sabemos que a adaptação de um óculos esportivo curvado requer ainda mais critério por parte de óptico, por isso vamos esclarecer com uma linguagem bem simples quais são esses critérios e quando podemos usá-los.

Lentes

Existem três categorias de lentes surfassadas que são as mais utilizadas para a óculos esportivos curvados, são elas: "CR-39 de curva esférica", "Policarbonato de curva esférica" e "Resina Wrap". 

O CR-39 ou policarbonato de curva esférica é um bloco onde "toda" a sua extensão de curvatura possui o mesmo valor de sua base, isso é sua curvatura tem o formato de uma esfera, por isso o nome curva esférica. A curva esférica irá acompanhar e encaixar na curvatura do aro esportivo, sem risco de pular do mesmo. Existem blocos de CR-39 ou policarbonato curva esférica descentrados onde o diâmetro 76mm pode se estender até 85mm. Devemos evitar adaptar lentes cujo o diâmetro de confecção ultrapasse 85mm, pois existe uma limitação maior de matéria prima e recursos de medida para a execução do serviço. Vamos daqui a pouco também falar sobre diâmetro.

A resina wrap é uma lente surfassada encontrada tanto no CR quanto no policarbonato que possui uma compensação prismática que ajuda a melhorar a performance visual, principalmente quando a armação é muito curvada e o eixo visual do usuário fica restrito. Daqui a pouco vou mostrar isso em ilustrações.

A resina wrap é melhor do que o CR-39 ou policarbonato convencionais de curva esférica?. A resina wrap irá fazer uma diferença maior quando a armação é muito curvada na ponte e o eixo visual pode ficar restrito. No mais, você pode adaptar tranquilamente o CR39 ou policarbonato curva esférica em seu cliente.

Em mais de 95% dos óculos é utilizado o CR-39 ou policarbonato de curva esférica, pois a resina wrap é ainda um produto caro e de pouco conhecimento por parte dos profissionais.

Critérios de Adaptação

Os aspectos mais importantes para o pedido de lentes CR ou policarbonato convencionais para óculos curvados são:
  1. Identificação da curva da lente
  2. Limite dióptrico
  3. Implicações visuais
  4. Medidas do aro
  5. Cálculo do diâmetro
O primeiro passo é importantíssimo, pois identifica a curvatura da lente a ser solicitada.

1- Identificação da curva da lente

Na imagem abaixo temos 4 óculos de diferentes curvaturas. Neste momento muitos profissionais ópticos, por falta de orientação adequada, confundem "curvatura da armação" com "curvatura da lente".
Pensando na diferenciação desses conceitos, fui até um laboratório óptico e fotografei uma armação interessantíssima. Observe a foto dela abaixo e me responda: "Qual curva de lente você pediria?" 


Muitos colegas podem responder que a armação super curvada é típica para uma lente curva 8,00. Voltando nossa atenção novamente na foto acima, podemos observar que a ponte está gerando a curvatura acentuada da armação e não a horizontal do aro propriamente dita.

Eu editei a foto e fiz um "close" exatamente na curvatura da horizontal do aro. Observe a foto abaixo e responda: "Você ainda pediria uma curva 8,00?"


Em suma, o que define a curva de lente a ser pedida no laboratório é a curva da demolens. O que é demolens? Resposta: é a lente de demostração que vem encaixada de fábrica nas armações expostas na loja. Independente da curvatura que a armação tiver na ponte, o mais importante é medir a curva da demolens para saber que curva de CR-39 esférico você irá pedir ao laboratório.

Cientes desse detalhe, muitos profissionais utilizam uma ferramenta bem prática para medir a curvatura da lente, a chamada "régua de curva". Cada lado da régua possui uma curva, onde o óptico repousa as curva da régua até que uma delas se "encaixe" na curvatura da lente. Essas réguas normalmente oferecem na escala de curvas 2,00/4,00/6,00/8,00. Se o material da armação for mais "inflexível" como o titânio e alumínio, você pode solicitar uma curva que pode não se adaptar ao aro. Veja a régua de curva na foto abaixo. 

A régua de curva é uma alternativa para quem não tem esferômetro na loja. Caso não tenha os dois, você pode baixar a régua de curva em tamanho real de impressão em nossa área de downloads. Para acessar, clique AQUI.


Sabemos que a curva externa dos blocos semi acabados varia numa escala de 0,25 em 0,25, onde uma diferença de 0,50 entre a curva da régua e a curva exata da lente pode resultar num pedido inadequado de curva, o que pode acarretar no encaixe imperfeito da lente solicitada em aros que não permitem ajuste como o alumínio, por exemplo. Mesmo no acetato se a curva da peça for reduzida para o encaixe da lente, você pode descaracterizar o design e a esportividade do óculos.

A única e melhor forma de se medir a curvatura de uma lente com precisão é através do esferômetro, portanto esse equipamento é de presença essencial nas ópticas que vendem óculos curvados em RX. A lente do aro super curvado da foto acima foi medida e a surfassagem utilizou para este serviço um bloco de curva 6,50. 

Lembrando que quando o aro é curvado na ponte e a curva da demolens varia de 6,00 até 8,00 é necessária a venda de lente surfassada. Caso você venda lente pronta, mesmo no CR-39, a mesma não terá curvatura suficiente para encaixar no aro, obrigando o montador a tirar toda a curvatura da armação deixando-a reta, desconfigurando o design da peça e tornando o ajuste inviável no rosto do cliente. Nesses casos venda sempre lente surfassada!

Óculos esportivo com curva de demolens = 8,00.
A curva da lente graduada também precisa ser 8,00.

2- Limite Dióptrico

A venda de óculos curvados com prescrição é um desafio para os profissionais ópticos pois justamente os míopes, usuários mais restritos na adaptação óculos curvados, adoram essas peças ousadas e esportivas.

Em lentes CR surfassadas convencionais existe um limite para a confecção de dioptrias negativas em óculos curvados. A pergunta que não quer calar é: "Qual é esse limite?". O limite dióptrico para lentes medidas na curva 8,00 pode ser obtido através de uma simples conta: "Valor do esférico negativo + valor do cilíndrico negativo + valor da curva da lente medida no esferômetro não pode passar de 10,00".

Exemplo 1: -1,00 (esférico) + -1,00 (cilíndrico) + 8,00 (curva medida) = 10,00 (ok para pedido!)

Exemplo 2: -2,00 (esférico) + -0,00 (cilíndrico plano) + 8,00 (curva medida) = 10,00 (ok para pedido!)

Exemplo 3: -1,50 (esférico) + -0,50 (cilíndrico) + 8,00 (curva medida) = 10,00 (ok para pedido!)

Exemplo 4: -3,00 (esférico) + -1,00 (cilíndrico) + 8,00 (curva medida) = 12,00 ( não ok para pedido!)

O limite dióptrico negativo para lentes CR surfassadas convencionais é mais flexível nas curvas das lentes medidas no esferômetro com resultado 6,00. Para curvas medidas em 6,00 a simples conta para o limite dióptrico do pedido é:  "Valor do esférico negativo + valor do cilíndrico negativo + valor da curva da lente medida no esferômetro não pode passar de 10,00".

Exemplo 1: -2,50 (esférico) + -1,50 (cilíndrico) + 6,00 (curva medida) = 10,00 (ok para pedido!)

Exemplo 2: -4,00 (esférico) + -0,00 (cilíndrico plano) + 6,00 (curva medida) = 10,00 (ok para pedido!)

Exemplo 3: -3,50 (esférico) + -0,50 (cilíndrico) + 6,00 (curva medida) = 10,00 (ok para pedido!) 

Exemplo 4: -3,50 (esférico) + -1,50 (cilíndrico) + 6,00 (curva medida) = 11,00 ( não ok para pedido!)

O limite dióptrico existe para preservar a viabilidade do serviço de montagem, a estética da peça curvada e a qualidade visual mínima para o usuário.

Fora a curvatura da lente medida, a curvatura total da peça também influencia na qualidade visual. Quanto mais curvada é a peça, menor a qualidade visual. Daí também a função dos limites dióptricos explicados acima.

Para facilitar a visualização dos limites dióptricos, criei dois gráficos: um com a possibilidade de receituário para lentes de curva base 6,00 e outro para curva base 8,00. Ambos para a surfassagem de um bloco CR-39 curva esférica. Consulte com seu laboratório as possibilidades de receituário para resinas wrap.

As possibilidades de receituário abaixo também são válidas para o policarbonato surfassado de curva esférica.

Seguem abaixo as possibilidades. Caso queira baixá-las, vá até a nossa área de downloads. Para acessar, clique AQUI.





3- Implicações Visuais

Na imagem meramente ilustrativa abaixo, temos um óculos cuja curvatura da ponte não é tão acentuada, portanto independente do valor da curva da demolens ser 6,00 ou 8,00, o eixo de visão está favorável ao usuário e uma lente CR-39 ou policarbonato curva esférica cumpre bem o seu papel. Neste tipo de curvatura (na ponte) de aro, a performance de qualidade visual não ficará comprometida.


Na imagem meramente ilustrativa abaixo, temos um óculos cuja curvatura da ponte é mais acentuada, independente do valor da curva da demolens ser 6,00 ou 8,00, o eixo de visão não está tão favorável ao usuário e uma lente CR-39 ou poli curva esférica pode ser adaptada, porém não vai compensar essa limitação de performance. Nessa hora é que a opção da resina wrap é bem vinda, pois irá ser surfassada com a compensação prismática adequada para não comprometer a performance visual do cliente. 

Afirmo que neste tipo de aro, montado numa CR-39 ou poli curva esférica o seu cliente irá enxergar, porém o conforto será maior se você oferecer a ele uma resina wrap.


4- Medidas do Aro

As medidas do aro (ponte, aro, diagonal maior e vertical) precisam ser tiradas com muito cuidado, observando detalhes muito importantes.

A medição de um óculos curvado sempre é feita através da lente, portanto para uma medição bem feita retire a lente da armação e meça ponte, aro, diagonal maior e vertical através das extremidades das lentes.

Na foto abaixo temos o erro mais comum nas medidas de aros curvados, medir as extremidades das lentes encaixadas no aro e curvando a régua. Quando se curva a régua, a medição de cada item do aro resulta em valores maiores que no final vão implicar num diâmetro muito maior do que o necessário, às vezes inviabilizando o serviço, pois o cálculo mostra um diâmetro superior ao oferecido pelo fabricante do bloco. 

Não curve a régua para medir as lentes.
Conforme explicado, as medidas do aro precisam ser feitas através das extremidades da lente retirada do aro. A régua não pode estar curvada e sim o mais reta possível. Durante a medição, considere que as extremidades da lente começam no bisel (fenda feita na borda da lente para que a mesma se encaixe na canaleta do aro). Essas extremidades são medidas pelo lado côncavo da lente, isso é, a régua reta deve medir a extremidade da lente no lado da curva interna da mesma.

Meça a lente pela sua abertura, sempre com a régua reta e sem esquecer o bisel


5- Cálculo do Diâmetro

No final das medições, dois itens precisam ser cuidadosamente verificados:
  1. Quanto menor a DNP do usuário, maior será o diâmetro da lente. Pode ser que não exista diâmetro disponível para efetuar o serviço dentro dos limites dióptricos.
  2. Quanto maior o valor da diagonal maior, maior será a dificuldade do encaixe da lente curva 8,00 no aro. quando esta diagonal maior passar de 65mm, solicite análise técnica de seu laboratório óptico.
Para exemplificar o impacto que a DNP tem no resultado do diâmetro calculado para lentes curvadas, vou usar as medidas de um aro curvado "X":
  • Ponte = 17mm
  • Aro = 64mm
  • Diagonal Maior = 67mm
  • Vertical = 48mm
  • Altura pupilar = 26mm
Nessas mesmas medidas, vou calcular o diâmetro com as DNPs:
  • 28/28
  • 30/30
  • 32/32
  • 34/34
Na imagem abaixo temos para uma DNP 28/28 um diâmetro calculado de 94,3mm para ambos os olhos. Com esse resultado fica praticamente inviável produzir uma lente CR ou poli convencional dentro dos limites dioptricos, a não ser que a DNP informada para a surfassagem seja propositadamente aumentada, o que vai causar a montagem do óculos fora da DNP. Lembre-se que segundo Prentice, dioptria esférica multiplicada pelos centímetros descentrados na montagem induzirá um determinado prisma à lente. Daqui a pouco vamos calcular. Clique na imagem para ampliá-la, caso necessário.

EXEMPLO DE DIÂMETRO N° 1

Na imagem abaixo temos para uma DNP 30/30 um diâmetro calculado de 90,4mm para ambos os olhos.
Com esse resultado é possível produzir uma lente CR ou poli dentro dos limites dióptricos, sem alterar as medidas de montagem da DNP, evitando a indução de prisma ao usuário. Clique na imagem para ampliá-la, caso necessário.

EXEMPLO DE DIÂMETRO N° 2

Conforme observamos, não é possível confeccionar a lente do exemplo N°1. O único artifício seria mudar a DNP, por exemplo para 30/30 (DNP do exemplo N°2). Uma pessoa com esférico de +4,00 e  DNP 28/28 usando lentes CR montadas a 30/30, segundo Prentice, enxergará um prisma de 0,80 dioptrias. (4,00d X 0,20cm = 0,80. No popular, montar óculos fora da DNP é cometer uma falha técnica grave que vai prejudicar a qualidade visual do usuário.


Na imagem abaixo temos para uma DNP 32/32 um diâmetro calculado de 86,5mm para ambos os olhos.
Com esse resultado é possível produzir uma lente CR ou poli dentro dos limites dióptricos, sem alterar as medidas de montagem da DNP, evitando a indução de prisma ao usuário. Clique na imagem para ampliá-la, caso necessário.


EXEMPLO DE DIÂMETRO N° 3


Na imagem abaixo temos finalmente para uma DNP 34/34 um diâmetro calculado de 82,6mm para ambos os olhos. Com esse resultado é possível produzir uma lente CR ou poli dentro dos limites dióptricos, sem alterar as medidas de montagem da DNP, evitando a indução de prisma ao usuário. Clique na imagem para ampliá-la, caso necessário.


EXEMPLO DE DIÂMETRO N° 4

Está mais do que provado: quanto menor a DNP, maior será o diâmetro da lente.

Para comprovar que quanto maior o valor "diagonal maior" maior será o diâmetro da lente, vou reduzir a diagonal maior do exemplo n°3 (DNP 32/32) para 64mm (mesmo valor do aro).



EXEMPLO DE DIÂMETRO N° 5
Como podemos notar no exemplo n°5, com a diagonal maior 64mm, o diâmetro foi reduzido de 86,5 para 83,5mm o que traria um resultado estético e de espessura muito melhor, principalmente se a lente for positiva.

Com todas essas dicas, podemos concluir que com um receituário entre -2,00 e -4,00 (esféricos e cilíndricos somados com as curvas 8,00 e 6,00 respectivamente) e armações com a medida "diagonal maior" com um valor inferior a 65mm e o cliente com uma DNP a partir de 30/30 podemos com certeza vender óculos curvados com lentes CR ou poli com bons resultados.

Com já sabemos, os limites dióptricos foram criados para o usuário ter uma qualidade de imagem aceitável numa lente CR ou poli convencional surfassada, lembrando que quanto menor a DNP mais afastado será o campo visual do cliente em relação ao campo visual da lente.


Resumo do que vimos neste artigo:
  1. Aro curvado é uma coisa, lente curvada é outra...
  2. A curva da lente graduada deve ser igual a da demolens.
  3. Caso medida da demolens a curva esteja entre 6,00 e 8,00, peça surfassagem.
  4. Os blocos para essa surfassagem precisam ser de curva esférica.
  5. O seu cliente pode usar um óculos esportivo de lente com curva de 6,00 a 8,00 caso a soma (só números, sem sinais) do esférico, do cilíndrico e da curva da demolens seja no máximo 10,00.
  6. Quanto menor a DNP do cliente e maior a diagonal da armação, menor será a possibilidade de fazer um óculos devido ao diâmetro calculado ultrapassar (na maioria das vezes) 85mm.
  7. Quando a receita estiver OK e a medida da demolens estiver OK, calcule o diâmetro para ver se as medidas do aro estão compatíveis com a medida do cliente. Assim o laboratório pode usar um bloco com um diâmetro máximo disponível.
  8. Adaptar lentes graduadas em óculos curvado não é difícil, basta ter paciência para observar cada um dos critérios mencionados neste artigo.

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